Sim, caros leitores, é deles mesmo que estou falando: dos testículos. Como não temos muita sensibilidade, ou nenhuma, é preciso ficar atento, principalmente porque estamos sempre sentados.
O primeiro cuidado a se tomar é com as roupas: usar cuecas ou calças muito apertadas podem machucar os testículos e causar até uma lesão ou deixar o cara estéril. E mesmo se a roupa não for tão apertada, mas justa, qualquer movimento mais brusco ou transferência pode apertar as coitadas das bolas. Mas não pense que usar calças largas demais resolve. Nesse caso, costuma acontecer de a calça girar no corpo, fazendo com que o apertão aconteça do mesmo jeito. O jeito é: depois de cada transferência dar uma conferida para ver se os testículos não foram prensados. Ao se acomodar na cadeira, é preciso dar aquela conferida rápida e discreta. Eu já estou treinado e faço a checagem em meio segundo, com total discrição. Mas se me virem com a mão lá por um instante, é precaução, e não safadeza.
Pelo menos os cadeirantes têm duas vantagens nesse quesito: é muito difícil a gente levar um chute no saco, e mesmo se levarmos, não vamos agonizar de dor por intermináveis minutos... E você, mulher que riu da situação, saiba que já existem estudos apontando que a dor de um chute no saco é maior do que a dor do parto.
Esquema do implante: pulsos elétricos direto na medula
Leitores do blog, vocês sabiam que sou o cadeirante mais bem humorado do mundo? Falo isto com propriedade não porque conheço todos os cadeirantes do mundo, mas devido à minha sequela mais grave da lesão medular: a dor crônica. Corrigindo, então: sou o cadeirante com dor crônica mais bem humorado do mundo. Ou melhor, sou a pessoa com dor crônica mais bem humorada. Pois é muito, muito difícil o cara manter o bom humor sentindo dores intensas todos os dias. Haja bom humor.
Mas o objetivo deste texto não é demonstrar minha modéstia, que é meu único defeito, mas sim contar-lhes e pedir opiniões sobre minha nova frente de batalha contra a dor: uma cirurgia de implante de um neuroestimulador na medula. A ideia surgiu de um dos neurocirurgiões que me acompanha, o Baroni (o outro é o Dr. Gabriel, do Sarah). Ele disse que já fez uma cirurgia dessas em uma paraplégica com sucesso, mas nunca a conheci (nem ninguém que tenha passado por esta cirurgia). Pesquisando, encontrei vários bons artigos sobre o tema, mas nada específico de um lesado medular. Portanto, se alguém sabe de um caso destes, me conta, please.
Não sei se tem gente que duvida que sinto tanta dor, pois dor é uma coisa muito subjetiva, o indivíduo pode berrar como um louco ou sofrer em silêncio. Eu escolho usar o bom humor para driblar o sofrimento. Por isso, mesmo em um dia de crise, pouca gente percebe, pois converso numa boa, faço piada, trabalho o dia inteiro, dirijo, etc. Mas quando chego em casa, deito, geralmente de bruços, e tomo um tylex, ou outro remédio forte. Mas não fico puto, nem triste, nem irritado: continuo o mesmo, vejo uma novelinha, estudo, ou, como hoje, escrevo no blog. Sim, meus caros, enquanto escrevo este texto estou sentindo dores terríveis, minhas pernas queimam como o fogo, alguns lugares latejam, meu peito dói (essa dor é a única que me preocupa mesmo) e nas costas parece que há umas cinco facas. Se mexendo.
Bem, esta é mais uma tentativa de minimizar, ou quem sabe eliminar, a dor crônica no meu corpo. Eu sempre digo que já me acostumei, mas a verdade é que é impossível se acostumar com dor todo dia. Eu, pelo menos, consigo rir dela. Antes que ela ria de mim.
Links sobre o assunto: Dr. Eduardo Barrreto Blog Dores Crônicas Matéria na Época
Tem gente que acha palestra motivacional um porre, uma perda de tempo. Mas não é bem assim não. Acho que para o cara falar sobre motivação, tem que ter motivo. Ou seja, tem que ter uma história real, vivida por ele, que demonstre como buscou motivação para chegar lá. Como, por exemplo, uma pessoa que saiu de baixo, vivia em um lugar sem oportunidades e correu atrás para se dar bem na vida. Ou uma pessoa que tinha uma vida ativa, perdeu o movimento das pernas, virou cadeirante, e correu atrás (ou melhor, rodou atrás) para conseguir de novo uma vida ativa.
Eu já dei meu depoimento algumas vezes, para pequenas plateias, mas não sei se daria certo nessa área. Mas esse post é para citar dois caras que fazem isso, o Toni Vaz e o Evandro Bonocchi. O Toni é mineiro e conheço só por e-mail, e o Evandro paulista, conheci-o na Reatech de 2009, muito gente boa, e ano passado ele me apresentou a handbike Handvikn, que é a que mostro muito aqui no blog. Confiram os sites deles, e conheçam as histórias de dois cadeirantes guerreiros:
Mais um abuso cometido por shopping. Desta vez o relato vem do Distrito Federal, do José Oscar, que é cadeirante e advogado em Brasília.
Como se não bastasse ser comum encontrarmos carros de pessoas que não são deficientes, muitas vezes com a conivência dos funcionários do shopping, o José Oscar se deparou com um desrespeito ainda maior. Ele é frequentador do Taguatinga Shopping, e sempre que encontra vagas reservadas sendo mal ocupadas ele reclama, mas desta vez ficou sem argumentos. Ele encontrou na vaga reservada para deficientes um carro promocional do próprio shopping.
Se a própria administração do shopping deixa isto acontecer, como algum cliente pode esperar ou mesmo exigir respeito? É triste perceber o descaso com os deficientes físicos, parece que encaram estas vagas como alternativa para outros usos, como acontece em alguns banheiros. Eu já vi várias vezes banheiros para deficientes sendo usados como depósito de material de limpeza, ou mesmo de materiais inservíveis, como pias, móveis, e outros "lixos".
Mais uma vez, repito: se não reclamarmos, botarmos a boca no trombone, a coisa continua como está, ou piora. Um dia, espero, seremos ouvidos.
UPDATE: Resposta do Taguatinga Shopping:
Caros Sam e José Oscar,
Soubemos do ocorrido na vaga para
cadeirantes do Taguatinga Shopping e lamentamos profundamente o fato em questão.
Estaremos mais atentos junto à nossa equipe e às empresas que locam espaços
comerciais em nosso shopping, como foi o caso. Esperamos que esse ato isolado
não impeça o Sr. José Oscar de fazer novas visitas ao Taguatinga
Shopping. Estamos sempre abertos a sugestões e críticas.
Sábado passado estive no Ambrosio's Grill, churrascaria de alto nível que fica na Av. Getúlio Vargas, 880. Como é muito perto da minha casa, cogitei ir a pé (ou melhor, a roda), mas desisti pois na volta há uma pequena subida, e não ia dar para voltar rolando (depois de comer um rodízio...).
Fui de carro e encontrei vaga bem na frente. O lugar é tranquilo para cadeirante porque fica em uma parte plana da avenida e tem vaga para deficientes a menos de 50 metros do restaurante. Só que trata-se da Getúlio Vargas, e o movimento lá é intenso, portanto é preciso cuidado ao desembarcar. Além de muitos carros, passam também muitos ônibus por lá.
Não tem rampa na calçada bem na frente, mas há uma entrada para estacionamento bem ao lado, tranquilo para subir. Mas o mais importante tem: rampa na entrada, para vencer o único degrau que existe lá. Além disso, tem mesas na frente, no nível da calçada, o que facilita se a pessoa não quiser subir a rampinha. Mas ela é bem feita, não é íngreme e transmite segurança.
Fazendo cara de bacana... atrás de mim, a escada para o 2º andar
Lá dentro é bem tranquilo rodar com uma cadeira de rodas, tem bastante espaço entre as mesas. Há um segundo andar, mas tem uma escada para chegar lá e não tem elevador. As mesas são acessíveis, com pés paralelos, muito fáceis de entrar com a cadeira. E o banheiro também é muito bom, não é separado do banheiro "comum", fica dentro do masculino, mas é bem espaçoso e tem todos as adaptações necessárias. Até a pia é boa, não tem armário embaixo, dá para entrar facilmente com a cadeira. Só que como nada é perfeito, a trava do box adaptado estava quebrada. Aí não dá pra ter privacidade, né?
A pia do banheiro, bem bacana
Mas o ponto alto do restaurante é mesmo a comida. Carnes de primeira, bem variadas, inclusive exóticas. Comi até carne de Javali! Tem um gosto bem forte, mas é saborosa. O buffet também é um espetáculo, muito variado e cheio de boas opções. Mas o preço é salgado. Só fui lá porque comprei um desses cupons de descontos, acho que foi do Groupon. Valeu a pena, mas pra voltar, só se estiver com muuuita vontade de comer boas carnes.
Meu amigo Alfredo me mandou o vídeo acima, que mostra uma cadeira Alemã desmontável, da marca Sessio, que é super prática. Percebam a facilidade para desmontar e colocar no carro. Incrível como ela fica compacta fechada, e como é fácil passar por cima do cara para colocar dentro do carro. Sem contar a aparente leveza, o cara quase não faz força para levantar a cadeira.
Depois de assistir esse vídeo, encontrei outra cadeira tão prática quanto a primeira, e outra vez uma Alemã. Ela cabe dentro de uma mala pequenininha, e parece feita justamente para quem gosta de viajar. Dá um certo trabalho para montar, mas creio que com a prática o cara pega o jeito rapidinho. É gente, em tecnologia de cadeira de rodas nós ainda estamos engatinhando...
Ontem e hoje aconteceu a Feira de Tenologias Assistivas no Parque Municipal de BH, como parte da 18ª semana da pessoa com deficiência. Estive lá nos dois dias, mas infelizmente não peguei a hora que a feira "bombou", pois subestimei a disposição dos visitantes. É que eu não botei fé que o pessoal ia aparecer no sábado de manhã, então deixei para ir na parte da tarde. Chegue lá por volta das duas e meia, e o movimento já tinha caído um pouco. Me disseram que de manhã apareceu muita gente, foi bem movimentado.
Palio Dualogic cheio de adaptações
Fui direto nos stands do Hélio Adaptações e Automax, que estavam bem em frente ao portão principal. O Hélio levou um Palio Dualogic com várias adaptações, inclusive um banco que vira e se aproxima da porta, facilitando bastante a transferência. Estava também com uma adaptação manual de freio e acelerador Europa Lever, a melhor que já experimentei, e uma central de comando no pomo, super completa e moderna, permite acessar as principais funções do carro sem tirar a mão do pomo. Muito bacana.
Stand da Automax, e a Doblo com elevador
O stand da Automax levou um Doblo com elevador, da marca Braun, instalado pela Technobras. Testei o equipamento e até dei uma entrevista para a Redeminas contando a experiência. Eu já havia experimentado um elevador deste tipo há algum tempo, mas fiquei impressionado como este modelo dá segurança para quem está subindo. Não balança nada, sobe rapidinho e permite a entrada no carro com muita tranquilidade. E o carro tem teto elevado e panorâmico, bem melhor que aqueles sem vidro, em que a gente tem a impressão que está num cubículo fechado. Como o vidro na frente, o cadeirante pode ir curtindo a paisagem e dá mais sensação de segurança. Abaixo tem um vídeo que fiz utilizando o aparelho.
Hoje levei minha handbike e dei umas boas voltas no parque. Como sempre, chamou muita atenção, parei várias vezes para explicar do que se tratava, e tiraram várias fotos dela. Foi muito bom mostrar essa alternativa de lazer para cadeirantes, e gostei de rodar pelo parque, que é maior do que eu pensava.
Haviam também stands da Toyota, Citroen, Pinguim (que está vendendo M3 em BH), da Prefeitura, do pessoal de Santa Rita do Sapucaí (eles têm uma máquina de andar, pena que não levaram), Fumec e outros, sem contar as barraquinhas de artesanato, dezenas delas. Achei muito bom o evento, bem organizado, mas tenho duas críticas: primeiro, o lugar, grande parte dos stands ficava sobre pedra fincada, horrível para andar com cadeira de rodas. Sem contar que é super difícil conseguir estacionar em volta do parque, e acaba ficando longe. Outra coisa, a divulgação. Poderia ter sido melhor, muita gente me disse que só ficou sabendo por causa do meu blog. Deveria ter sido mais divulgado.
São lições para o próximo evento, e Belo Horizonte merece um evento de porte voltado para o público deficiente. E há vários bons lugares para fazer isso por aqui. Felizmente fiquei sabendo que há estudos para trazer uma mini Reatech pra cá, e podem contar comigo.